O ano de 2019 foi mais intimista, numa digressão que privilegiou as salas em detrimento dos palcos ao ar livre, mas a passagem do ano no Porto, onde estreou ao vivo o tema ‘Talvez Se Eu Dançasse’ em plena Avenida dos Aliados já fazia adivinhar um 2020 mais voltado para fora.
Miguel Araújo, o tímido que aprendeu a subir ao palco e enfrentar o público – tocando e cantando como se estivesse numa sala vazia – promete para breve o lançamento de um novo tema, cuja música foi composta em parceria com António Zambujo, intitulada ‘Dia de Procissão’ e que para alegria dos fãs da dupla que esgotou 28 datas nos Coliseus do Porto e Lisboa em 2016 – verá a luz do dia ainda antes do arranque da digressão.
Em 2018, Miguel Araújo, compositor, letrista, cantor e músico, venceu o prémio de Melhor Espetáculo Nacional Num Festival Ibérico nos Iberian Festival Awards desse ano, pelo concerto no Festival F, e o tema que estreou nesta passagem de ano na Invicta também tem posto o resto do País a mexer: conta já com mais de 100 mil visualizações no Youtube.
No último réveillon, Araújo, com quatro álbuns editados, autor de músicas-sucesso como ‘Maridos das Outras’ e ‘Pica do Sete’, casado, pai de três filhos, corredor matinal e apreciador de bons restaurantes, estava a jogar em casa: nasceu na Maia em 1978 mas mudou-se aos dez anos para a cidade do Porto.
Chegou a conciliar a carreira a solo com a banda ‘Os Azeitonas’ e depois de muitos convites para ir ver os aviões, a partir do segundo disco ficou difícil conciliar as duas vidas musicais, embora nunca fechando a porta a colaborações esporádicas, ele que gosta muito de tocar com amigos (embora tenha um pouco de vergonha de fazer os convites, como já chegou a confessar) – tanto que já levou vários deles para cima do palco.
No dia 23 de julho, para o acompanhar no EDPCOOLJAZZ, convidou um dos seus heróis: Rui Veloso.
Uma vez que em 2019 fez uma digressão de mais de 40 auditórios e que neste 2020 se prepara para um regresso aos grandes palcos de exterior, podemos dizer que vai de dentro para fora?
Sim, podemos dizer que sim. A minha música tem a possibilidade desses dois lados, um mais introvertido e outro mais extrovertido. Gosto dos dois, sinto falta dessas duas facetas.
Foi uma escolha sua fazer mais concertos em sala no ano passado do que no exterior?
Sim, foi uma digressão pensada e planeada, em que estive sozinho em palco, a explorar várias possibilidades entre vários instrumentos. Para isso, é fundamental um ambiente controlado que só numa sala fechada se consegue.
Quais as principais diferenças para um artista entre um auditório fechado e um palco exterior? Algum registo em que se sinta mais confortável?
Gosto dos dois, sinto-me cada vez mais à vontade nos dois, sinto necessidade de oscilar entre os dois. Numa sala fechada, com entrada paga, o público sabe ao que vai, conhece e, em princípio, valoriza o artista. Num ambiente de ar livre, com entrada gratuita, o público é mais variado, muitas das pessoas nem conhecem o artista que está em palco.
Essa é para mim a diferença fundamental. O artista está a competir e a esgrimir por atenção com os carrinhos de choques e as máquinas de farturas. O que é maravilhoso também, tudo é uma maravilha.
Em 2019 esgotou quase 40 salas de espetáculos. Ainda se surpreende com o sucesso e com o facto do público gostar tanto de si?
Sim. As pessoas vão mais atrás da música, do reportório que conhecem, não tanto pela pessoa, pelo culto da personalidade. O público que vai aos meus concertos gosta da música, não necessariamente ‘de mim’.
Algum momento que lhe tenha ficado na memória desta digressão de 2019?
Sem dúvida, a sessão dupla no Coliseu do Porto. Enfrentar essa tão imponente sala completamente sozinho em palco é algo que significa muito para mim, pelas dificuldades de estar em palco que enfrentei durante muitos anos.
Como lida com os (vários) prémios que tem vindo a receber?
Eu sou um grande colecionador de nomeações, não tanto de prémios! Mas é bom, significa que sou um maratonista, e não um corredor dos 100 metros, o que é bom, numa perspetiva de me manter por cá muitos anos a fazer algo que adoro. Mas ganhei um prémio ibérico de melhor concerto de um artista ou banda portuguesa em festivais, e fiquei muito orgulhoso por mim e pela minha banda, significa uma valorização do nosso empenho.
Mas claro que não ligo muito a prémios, os prémios trazem um lado competitivo à música que não me agrada. Como dizer qual é a melhor música do ano? Se pensarmos bem, algo desse género não faz sentido, as canções têm um valor relativo, não absoluto.
O que pode o público esperar da digressão de 2020 que está a preparar?
Ainda não se pode anunciar grande coisa. Mas temos reportório novo, músicas novas, novas maneiras de tocar as músicas mais antigas, vamos arriscar ali umas coisas.
Para breve está o lançamento de um novo tema, cuja música foi composta em parceria com António Zambujo. Está nos planos para 2020 algum espetáculo desta ‘dupla’ que conquistou o público?
Não, isso não. Mas em 2016 semeámos algumas sementes para canções e agora, quatro anos depois, vai sair a primeira. Foram muitas horas enfiados em camarins, sem nada para fazer, com as guitarras ao colo, saíram algumas coisas.
Já comentou que todos os dias vai para o seu estúdio trabalhar das 10h às 18h, o que dá a impressão de um normal funcionário de escritório. Como surge a inspiração?
Eu não componho no estúdio: eu componho no carro, no chuveiro, a dormir, a correr, seja onde for, mas nunca no estúdio. Tenho mais de 80 canções feitas, vou para o estúdio como quem vai para o escritório gravar essas dezenas de músicas que apenas existem em rascunhos de telemóvel.
A música 'Talvez Se Eu Dançasse', que abriu o ano 2020 no Porto, marca o começo de uma nova era para o Miguel. Em que sentido?
No sentido em que o conceito de álbum de 12 canções já não me tolda a criatividade, não me estreita as possibilidades que uma canção isolada permite.
Durante um longo período irei lançar canções soltas. O conceito de disco já não fará parte dos meus planos editoriais. Se, no fim dum ciclo de 12 canções lançadas, eu sentir que por qualquer razão será pertinente lançá-las num CD, assim farei. Mas não será um álbum de originais, tecnicamente será uma coletânea.
Como é que se prepara para uma digressão?
Ensaios, exercício, surf, família.
Já disse que era incapaz de convidar alguém para cantar consigo. Como é que um tímido sobe ao palco?
Ignoro a existência do público, que é a forma mais altruísta de um artista de palco se dar. Toco e canto como se ninguém estivesse lá. É para ver isso que as pessoas estão lá.
Quem gostaria que cantasse consigo em 2020?
Não penso nessas coisas. Mas sonho em tocar com o Mark Knopfler.