Éramos atacados todos os dias
Em Bigene foi pior. Éramos atacados todos os dias. Vi o primeiro morto durante um ataque ao quartel. Um alferes pisou uma mina e acabou por morrer. Durante os bombardeamentos tínhamos de ir para os abrigos subterrâneos para nos protegermos.
Quando fazíamos patrulha a pé pelo capim éramos emboscados e tínhamos de seguir com uma distância de três a quatro metros entre cada um. Como eu era das transmissões, tinha de pedir socorro. Era sempre assim: começava o tiroteio, baixávamo-nos e pedíamos ajuda aos aviões T6.
Falávamos sempre em código: ‘Aqui águia 1, aqui águia 1. Atenção águia, daqui crocodilo. Escuto.’ Depois pedia socorro. Só que o piloto não sabia onde nós estávamos e tinha de ser eu a orientá-lo. Levava o rádio e uma tela com dois metros de comprimento e meio metro de largura, colorida, para sinalizar a nossa posição. Tinha de descobrir uma clareira para estender a tela. Só quando tinha a tela à vista é que ele bombardeava dali para a frente. A aviação salvou-nos muitas vezes.
No regresso não podíamos usar o mesmo trilho. Tínhamos de abrir outro porque o primeiro podia estar armadilhado. O alferes que perdeu a vida foi atingido num carreiro desses. Queriam reconstruir uma ponte que estava destruída. Saímos do quartel em fila, com o alferes no meio. Saiu da fila e foi pisar a mina mais à frente. Ainda foi com vida para o hospital, morreu no avião a caminho da metrópole, oito dias depois.
Foi também em Bigene, já no fim da comissão, que recuperámos 10 toneladas de material. Encontrámos um aldeamento, onde não estava ninguém. Estavam a atacar a outra companhia que ficou sem munições. Um silêncio terrível. Não sabíamos onde eles estavam e pedimos o apoio do bombardeiro. Combinei com o piloto para que abanasse uma asa quando os visse. Não chegámos a dar um tiro.
Embarcámos no ‘Niassa’, em Bissau. Cheguei a 13 de junho de 1969, dia de Santo António. Tinha a família à espera.